
Hoje pela manhã, estava no ônibus a caminho do trabalho carregando um saco com bolo e um pacote de biscoito, pois toda sexta feira os colegas se reunem e fazem um café da manhã coletivo onde cada um de nós leva alguma coisa... durante o trajeto, entra no coletivo (pela porta de saída dos passageiros) dois meninos de rua, eles brincavam e ao mesmo tempo falavam gírias, eram um misto de crianças e adultos... fiquei com pena, porém, ao chegar no meu destino, levantei pra descer do ônibus, um deles viu o que continha na sacola que eu carregava e puxou o saco da minha mão dizendo que estava com fome, quase me obrigando a lhe dar o alimento que ali continha... fiquei muito bolada e dei um tabefe no muleque, a pena que eu sentia antes virou raiva... garoto abusado... mas depois que passou pensei: Coitado, mais uma vítima do sistema... ele não tem culpa por estar vivendo assim. Agora, por coinscidência, ou não, ao abrir meu e-mail me deparei com um texto enviado por uma pessoa que não conheço, mas que achei sensacional... e resolvi postar aqui, pois fala exatamente sobre esses meninos que vivem a beira da marginalidade... parabéns a autora por relatar brilhantemente sobre esse tema!
Segue o texto:
" Eram todos pretos. A miséria que os rodeava tinha cor indefinida. Ou miséria tem cor? Eram todos pretos e estavam estranhamente rígidos feito transeuntes de efêmera passagem pela vida.
A morte os fazia mais pretos e de tão pretos, indigentes invisíveis. A invisibilidade demarcando espaço com a indiferença alheia. Foram mortos enquanto dormiam. Nenhum de bala perdida. A bala do racismo é certeira.
Eram todos pretos e dormiam no limbo de uma existência sem muita significação. Nem para eles. Nem para os outros. Praticavam pequenos roubos na vizinhança comercial e a noite dormiam em colchão de papelão disputado a tapas. Às vezes encontravam um saco de cimento...
O pequeno ainda usava uma chupeta pendurada no pescoço e a alma recheada do oco da cola de sapateiro.
Quantos anos? Talvez cinco. Mirrado. Sete? Quem sabe? Alguém quer saber?
A piedade cristã embrulha os corpos com jornais. Notícias fresquinhas de mortes iminentes. Sem mãe. Nem pai. Todos pretos. Todos meninos. Todos solidão. Todos passado.
Eram meninos diferentes de todos os outros que moram em nossas casas. Eram meninos com a selvageria das ruas. Vence quem mais esperto for. Eram meninos que não conheciam as letras, nem com elas formavam sonhos.
Eram meninos com a ferocidade que só o abandono provoca e demora uma vida para reabilitar. Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
Uma vez os vi disputando os restos de sanduíche dos lixos. Sanduíches e restos de papel higiênico.
Quantas vezes tomavam banho? Quem os aconselhava a escovar dentes. E antes de embrulhar-se com o saco de cimento qual oração pronunciavam?
Acreditavam em Deus? Tinham medo de escuro?
Eram todos meninos. Todos pretos. Todos pobres. Meninos pretos que morreram como homens.
Assassinados".
(Arísia Barros)
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