
Por Marcio André dos Santos (Via Ierê Ferreira)
Em sua segunda edição, o BacktoBlack reuniu uma série de bons músicos
negros de estilos tão variados quanto o kora, o r&b, o pop e o blues,
sem contar o melhor da música negra brasileira. Parabenizo totalmente
...a qualidade da produção técnica do evento: exposição de imagens de
jovens negros em tamanho gigante, espaço para a exposição de peças e produtos de instituições sociais diversas, inclusive instituições
negras. Os patrocinadores do evento (Oi Futuro, Fundação Cultural
Palmares, Petrobras, etc) também contavam com stands dentro de um trem
especialmente adaptado para tal. Do ponto de vista do quesito
qualidade técnica não há o que reclamar, penso.
Porém, do ponto de visto político, o B2B reproduz pari passu uma
lógica ainda comum no Brasil no que se refere as “culturas negras”.
Concordo que toda cultura é pública por excelência, ou seja, ninguém
pode atribuir-se o direito absoluto de privatizar os usos e sentidos
de uma dada matriz cultural. Isso significa dizer que um sujeito
pertencente a uma nação indígena brasileira, por exemplo, pode e tem
todo direito de tocar Bach, de ouvir Fela Kuti e ler os poetas
portugueses sem sofrer qualquer constragimento por isso. No entanto,
em determinadas circunstâncias não é tão simples “praticar” a cultura
do outro como se isso fosse um produto comprado no supermercado. Em
outros termos, tem-se um processo de alienação e subalternização
quando a cultura do outro é utilizada a fim de fortalecer seja
politicamente seja economicamente a hegemonia de um grupo determinado.
Vamos dar os nomes aos bois. No caso do B2B vejo um total uso do
“repertório cultural negro-africano” voltado a fortalecer a hegemonia
branca corrente no Brasil. Por “repertório cultural negro-africano”
entendo um conjunto de expressões artísticas tais como dança, teatro,
culinária, cosmologias, filosofias, corporeidades (como a capoeira e a
dança afro), fotografia, cinema, universos simbólicos, etc, gestados a
partir de matrizes civilizacionais africanas e afro-brasileiras. Em
suma: há todo um agenciamento negro nessa produção e que por sua vez
carregam histórias ancestrais de lutas, resistências, perdas,
ressignificações, recriações, etc. Tal repertório não tem nada a ver
com pureza de qualquer espécie e nem necessariamente exclui outras
matrizes civilizacionais, já que toda formação cultural forja-se em um
diálogo constante com outras formações culturais.
O grande problema existente ai é a apropriação feita em nome e pela
eternização da hegemonia branca. O que isso quer dizer? O racismo no
Brasil significou e significa além da exclusão social e política da
maioria do povo negro, um extraordinário fortalecimento das elites
brancas. Isso se expressa no acesso as melhores escolas, as
universidades e cursos de excelência, aos melhores serviços sociais,
cargos de alto salário... em suma, padrões de vida de brancos e negros
diametralmente opostos, mantendo assim o fabuloso “equilíbrio de
forças” que tão comumente nos caracteriza. O mito da democracia racial
ao longo de todo o século 2o traduzia tais privilégios raciais em um
problema meramente social. Ou seja, o problema não era a cor da pele
do sujeito e sim seu background social. Esse discurso ainda é feito
atualmente, inclusive por intelectuais (brancos) que se notabilizaram
pesquisando “culturas negras” e relações raciais.
O BacktoWhiteSupremacy (quem preferir sugiro também BacktoWhiteness,
algo como retorno a branquitude... retorno?)surge em um contexto em
que tais assimetrais e privilégios vem sendo mais sistematicamente
discutidos na sociedade brasileira. Além da contradição que todo o
evento expressa, instituições ligadas ao governo federal voltadas a
promoção e defesa das culturas negras, como a Fundação Palmares,
conferiram total aval institucional e político a este tipo de
hegemonia. Capatazes pós-modernos!
Branquitude e esquizofrenia
Sou daqueles que pensam que ser crítico a um determinado tipo evento
cultural não é o mesmo que estar ausente. Se fosse assim, teríamos
pouquíssimas opções do que fazer, exceto ir a bailes funk e ensaio de
escola de samba (me refiro as escolas de samba de ”comunidade”, ok?).
Conforme falei acima, além da qualidade técnica do evento todos temos
direito de participar. Por esta razão fui no segundo dia para assistir
ao show da Erikah Badu. A geografia humana local traduzia
perfeitamente minhas suspeitas: cerca de 95% dos presentes eram
pessoas brancas de classe média e média alta. O mais esquisito para
mim não foi ver pessoas brancas ali - todos somos cidadãos com direito
e liberdade de acesso as manifestações culturais!!. O mais esquisito
foi ver que pessoas como eu, negras, eram minoritárias em um evento
que, literalmente, vendia a “cultura negra” para um público branco.
Negros em maioria somente o pessoal da limpeza e segurança pública...
As imagens de jovens adultos negros em tamanho gigante enfeitando todo
o enorme espaço do show constrastava com a parca presença de nossa
gente. Faltou somente aos brancos ter posto perucas de nega maluca
como fazem no carnaval para disfarçar a contradição presente... Alias,
pra que? Não seria preciso. Nunca foi, definitivamente.
A branquitude, um outro nome para hegemonia branca, diferentemente do que dizem seus teóricos não se escondia e nem precisava fazê-lo ali.
Reinava feliz e absoluta na terra do
faz-de-conta-que-não-tenho-privilégio-porque-continuarei-fazendo-de-conta-que-não-tenho-cor-para-que-vocês-continuem-perdendo.
Uma amiga que foi no último dia me contou que de um lado “todos” os
brancos assistiam ao show do Taj Mahal (musico negro que toca blues
mas que é consumido aqui pelas classes médias brancas, tal como o
reggae jamaicano) e “todos” os negros dançavam ao som do pessoal do
viaduto de Madureira. Quando o show do Taj Mahal terminou, os brancos
literalmente “invadiram” o espaço hegemonizado (será que cabe esse
termo aqui? pergunto (tenso) a mim mesmo...) pelos negros.
Por fim, creio que é hora de uma reflexão mais séria sobre esse tipo
de coisa. Entendo perfeitamente que artistas negros ou brancos façam
suas produções para pessoas de qualquer grupo social ou racial. É dali
que sai seu ganha pão. O que acho politicamente complicado é que um
evento coloque no bolso, capitalize e manipule ao bel prazer todo um
repertório cultural negro-africano como se isso viesse de “graça” para
nós, negros e negras, e ainda por cima com o apoio de uma instituição
do governo criada para fortalecer as demandas do povo negro. Qual o
papel da Fundação Palmares nisso? Melhor: qual o projeto da FCP?
Fortalecer-nos ou enfraquecer-nos? Contribuir para pulverizar o que
restou do mito da democracia racial (diga-se de passagem, continua
super forte e atuante) ou auxiliar em sua reprodução?
Os produtores do BacktoWhiteSupremacytoWhiteness devem estar felizes
com a Fundação Palmares e mais ainda com os recursos captaneados do
governo federal.
É hora de termos um Retorno à Negritude comprometido com efetivamente
com a negritude combativa legada pelos movimentos negros e pelo suor e sangue de nossos ancentrais."

